Preparadores

Preparadores de kart: mestres da velocidade

Desconhecidos do público, eles se dividem entre a mão na graxa e o giz na lousa a fim de ensinar os segredos das pistas de competição para meninos e meninas. Muitos preparadores e chefes de equipe influenciaram a carreira de grandes pilotos brasileiros, mas atualmente vivem longe da glória que ajudaram a construir. Alguns ganham mais do que um professor universitário. São pagos por pais ávidos de ver seus filhos brilhando nas pistas, celebridades na mídia. Mas nem sempre o começo é fácil.

O primeiro contato de Ayrton Senna da Silva, um menino discreto, com Lucio Pascual, conhecido por Tche, foi rápido e informal. Um era meio calado e queria ser piloto, outro, espanhol da Segovia e falante, é um dos preparadores de motor para kart mais conceituados do País. Da parceria mestre-aluno nasceu um dos nomes mais famosos de toda a história da Fórmula 1.

O preparador Tche (esq.) posa ao lado do pupilo Ayrton Senna. Na foto, de 1974, também aparecem o piloto argentino Jorge Dias (agachado), o mecânico Silvestre e o então garoto Leonardo Senna.Foi Tche quem alfabetizou Senna no automobilismo. Assim como um professor que ensina crianças a ler e a escrever, o espanhol deu ao tricampeão as primeiras noções sobre como acelerar, frear, pegar no volante, fazer as curvas e entender de bólidos de competição. O preparador, de 64 anos, estudou mecânica e eletricidade na Espanha. Logo que chegou ao Brasil, há 40 anos, trabalhou na extinta Gurgel. Depois, montou sua oficina e se especializou em motores. Além de Senna, Tche cuidava do motor do kart de Chico Serra, na época com 15 anos.

O preparador nunca competiu de kart. Seu conhecimento nasceu do convívio com o esporte. Uma experiência parecida com a de Altamir Mauro de Oliveira Dias, conhecido por Maurão, preparador de chassis e instrutor de pilotos de kart com fama de bravo, exigente e disciplinador.

Só depois de ouvir a história da vida desse profissional de 43 anos é que dá para entender o porquê da disciplina rígida. Se ele fosse diferente, talvez não conseguisse mudar seu destino. Aos oito anos, Maurão guardava carros em Interlagos. Com força de vontade, começou a auxiliar os mecânicos. Lavava motores, alinhava karts, ajudava e assistia aos profissionais do automobilismo. Aos poucos, fez fama e mostrou talento. Em 1977, abriu sua oficina e foi logo cuidar dos chassis de Senna, Serra e Affonso Giaffone.

A perseverança dos dois preparadores talvez seja o que de mais importante eles tenham para passar aos alunos. Aprender a competir de kart é resultado da repetição sem-número de várias manobras ao volante. Nada muito diferente das infinitas vezes que uma criança repete linhas curvas até dominar a escrita.

Na primeira aula, Maurão ensina o básico e aparentemente óbvio: como é o kart e a pista, como frear e acelerar: "Explico desde coisas elementares sobre macacão e luva até a tangência da curva." Nas seguintes, o professor já leva o aluno para a pista. "Se sou contratado para 'fazer' um piloto, fico 24 horas por dia com ele. Quem quer correr de kart comigo tem de trabalhar bastante. Treinamos duas vezes por semana durante cinco, seis horas, direto." Entre gritos e broncas, Maurão vai "abrindo as mentes para o kart", como gosta de dizer. Com o tempo, o disciplinador dos garotos se torna amigo de verdade. Mas pede a colaboração dos pais. "Pai só atrapalha. A melhor coisa é ele ficar assistindo da arquibancada."

Maurão sempre usa o exemplo de Senna para incentivar os alunos a treinar. "A força de vontade dele era incrível. Em uma de suas primeiras corridas de kart, choveu. Das 24 voltas, ele rodou em 22. No dia seguinte, amanheceu uma segunda-feira chuvosa. "Ayrton chegou às 8h em Interlagos e treinou o dia todo até acertar", recorda. "Pode-se dizer que ele foi o professor de todos nós."

Além da preparação dos chassis, Maurão começou a trabalhar como instrutor de pista e a cuidar de perto da carreira de muitos pilotos, como Tony Kanaan (hoje na F Cart), Luciano Burti (na F 1) e Gastão Fráguas (campeão mundial de kart em 1995). Pelas mãos dele passaram, ao todo, 58 pilotos, que, segundo o preparador, ganharam mais de mil corridas.

Kanaan é só elogios: "Maurão é meu pai preto, a pessoa com quem andei de kart pela primeira vez", brinca o piloto. "Ele me ensinou um monte de coisas e, juntos, ganhamos quatro campeonatos. Chorei muito por causa do jeito bravo dele. Mas, quando meu pai morreu, foi na sua casa que eu dormi."

Na opinião de Maurão, para ser bom piloto é preciso gostar: "Não há idade certa, quem começar com oito anos vai ficar uns dez no kart. Se será bom ou não vai depender muito do treino. É preciso bastante dedicação." Nas suas contas, hoje um campeão precisa, além de dinheiro (R$ 8 mil a R$ 15 mil mensais) e arrojo, ter um bom motor ("significa 50% do trabalho"), um bom chassi ("30%") e um bom pé no acelerador ("20%").

Tche e Maurão chegaram a trabalhar juntos por Senna. O primeiro na sua formação e o segundo preparando o chassi do kart. E, apesar dos altos custos do esporte, isso não era um problema para o futuro tricampeão: "Eu nunca recebi, nem cobrei para treiná-lo", conta Tche. "A única vez que fui à casa dele, não passei da sala, nem água me ofereceram."

O rosto de Tche se enche de alegria quando fala de Senna: "Nos conhecemos quando Ayrton tinha uns 14 anos. Ele e o pai, seu Milton, apareceram na minha oficina de preparação de motor para kart, na época na Mooca, para um conserto", recorda o preparador. "O garoto era tímido e quieto. Quando eles voltaram para buscar, o pai reclamou que o preço cobrado era baixo demais para o motor estar bom. Respondi que, se o filho dele andasse direitinho, ganharia a corrida."

Senna venceu. "Depois, ele voltou à oficina para me agradecer." A relação intensa dos dois começou aí e durou sete anos. Professor e aluno conversavam muito sobre mecânica e manobras. Tche dava dicas, Senna escutava e treinava exaustivamente. Foi tricampeão paulista de kart nesse período.

"Eu era como o segundo pai do Ayrton", recorda o instrutor. "Ia levá-lo e buscá-lo no aeroporto e retirava as passagens." Para quem pensa que a história do espanhol é exagerada, Autoesporte teve acesso à cópia de uma carta enviada por Senna, em 1979. O destinatário era Tche. Na carta (leia no boxe), o piloto demonstra muita gratidão a quem, carinhosamente, chamava de "Espanholo".

Senna KartEm determinada época, Senna era conhecido como Ayrton 42, alusão ao número do seu kart. "Nossa senha era 42. Quando precisava falar com ele por telefone ou passar um recado, ligava dizendo que queria falar com o 42", lembra Tche. "Mesmo depois da época do kart, continuamos usando o código, que acabei passando para algumas fãs que queriam muito falar com o Ayrton."

Depois que Senna foi para as demais categorias, e até pouco antes da F 1, a comunicação entre os dois passou a ser feita via telefonemas e cartas que o piloto remetia da Europa. Na Fórmula 1, o contato foi ficando cada vez mais distante. "Ele me ligava dizendo que estava vindo para o Brasil, mas nunca conseguíamos nos ver."

Cria e criador se encontraram pela última vez no GP do Brasil de 1994, em Interlagos. Antes da corrida, conversaram um pouco. Segundo o preparador, na despedida, Senna o abraçou confidenciando que sentia muita falta dele e que sofria bastante em um meio de raros amigos e pouco afeto. O campeão começou a chorar. Os dois trocaram mais um forte abraço e Tche foi embora. Foi essa a imagem que guardou de Senna. "Meu afilhado era uma pessoa muito triste. Você pode ver as fotos dele: mesmo quando sorria, os olhos eram tristes", lembra com emoção.

"Se Ayrton tivesse ganho o Mundial de Kart, não teria ido para a F 1 e estaria vivo", lamenta Tche. "Sua meta sempre foi ganhar aquela competição e depois deixar as corridas. Ele nunca quis trocar de categoria. Só que surgiu a oportunidade de continuar a carreira. O que era sorte mudou a vida dele e, anos mais tarde, transformou-se em azar na curva Tamburello (no circuito de Ímola, em 1994, local do acidente fatal)."

Apesar dos elogios, Tche afirma que, se Senna estivesse vivo, talvez não fosse mais o mesmo. "O Schumacher é agressivo e o Ayrton estaria velho para enfrentá-lo." Frustrado, o espanhol não foi ao enterro de seu pupilo: "Mandei uma coroa de flores, que, ao chegar no velório, foi devolvida."

Fonte: Autoesporte


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